O verdadeiro poder da leitura está no coletivo
- Rita Gaspar
- 23 de mar.
- 3 min de leitura

A leitura não nos torna melhores pessoas.
Aliás, não acredito que a arte, em geral, nos torne melhores pessoas. Ponto final.
Existe uma ideia muito enraizada de que ler os grandes clássicos, ouvir música erudita ou ter um gosto apurado nos eleva enquanto indivíduos. Essa associação sempre me foi difícil de aceitar. O leitor mais erudito, o conhecedor mais educado de música clássica, pode ter uma sensibilidade estética impressionante e um intelecto admirável, e ainda assim isso não nos diz rigorosamente nada sobre quem é como pessoa.
Cultura não é sinónimo de carácter. Nunca foi. Basta olhar em volta e para trás.
Dito isto, há algo na leitura, especificamente na ficção, que continuo a não encontrar em mais nenhuma forma de arte, algo que me comove de uma forma que mais nenhuma outra consegue fazer, embora o cinema o consiga em alguns momentos. A literatura tem, para mim, uma capacidade singular e difícil de descrever: permite-nos habitar, de forma prolongada e íntima, a vida de outra pessoa.
Durante um certo tempo, os problemas dessa personagem deixam de ser externos, as suas dificuldades deixam de ser abstratas e aquilo que lhe acontece passa a acontecer-nos, pelo menos numa dimensão emocional que não é facilmente replicável noutras experiências.
É precisamente aqui que, para mim, começa o problema de não ler.
Não tem nada a ver com falta de cultura nem com a ausência de referências. É algo mais subtil, mas mais sério: a dificuldade de sair de si próprio e de olhar para alguém diferente e ainda assim reconhecê-lo como alguém digno de compreensão.
Ler obriga-nos, ainda que temporariamente, a abandonar o centro da nossa própria existência.
Vivemos num mundo digital que, ironicamente, se apresenta como mais conectado do que nunca. E esta reflexão não é um argumento contra esse mundo. Os jovens de hoje têm competências diferentes e incrivelmente poderosas, proporcionadas pelos meios que utilizam, e não me parece que essas sejam negativas. No entanto, importa reconhecer que esta ligação digital é muitas vezes superficial e, pior do que isso, profundamente filtrada.
Os algoritmos devolvem-nos versões de nós próprios: as mesmas opiniões, as mesmas ideias, os mesmos enquadramentos do mundo. Criam-se assim câmaras de eco onde tudo confirma aquilo em que já acreditamos.
A leitura tem o potencial de fazer o oposto e de nos fazer habitar esse oposto.
Outra questão que se levanta é a forma como ensinamos a ler. Nas escolas, insiste-se frequentemente em começar pelo fim: análise, interpretação e dissecação de textos que, muitas vezes, nunca chegaram a ser verdadeiramente vividos por quem os lê.
Ensina-se a ler como se fosse uma obrigação técnica, antes de ser um prazer. A leitura começa por ser um entretenimento.
Sem prazer, não há hábito. Sem hábito, não há leitura. Vou mais longe e cito John Williams que, ao ser questionado sobre se a literatura deve entreter, respondeu: “Absolutely. My God, to read without joy is stupid.”
Tendo a concordar. Sem prazer, entretenimento e diversidade, a leitura perde precisamente aquilo que poderia oferecer de mais relevante.
Ainda assim, não acredito que isto transforme ninguém numa “pessoa melhor”. Essa promessa é excessiva e não me parece ter grande relevância ao nível individual.
O que acredito é que a literatura ganha relevância no coletivo.
Uma sociedade onde mais pessoas têm a capacidade de imaginar a vida do outro de forma sentida e concreta será, provavelmente, uma sociedade mais tolerante, mais paciente e mais generosa.
Não porque cada pessoa tenha sido moralmente elevada pela arte, mas porque, coletivamente se torna mais difícil ignorar o outro.


Comentários